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Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
A TI MARIA E O TI MANEL LOURO

AUTOR: tugareg 

 

…nessa noite Maria estava mais estranha que de costume, sempre se sentia insegura com o cabanão repleto de Atalaeiros a dormir na palha.

E era só nessa hora, antes de adormecer que lhe sobrevinham esses medos, antes quando estava na venda servindo-lhes copos de três, tudo era mais claro, quem sabe a oportunidade de negócio acrescido, lhe suavisasse a insegurança, no entanto mesmo nessa altura, Maria, receosa bem sentia os olhares.

Apesar de o seu aspecto ser austero e as suas roupas castanhas a taparem por completo, pelo rosto que ficava a descoberto por debaixo do lenço podendo-se avaliar o restante, e se muitos achavam o rosto de Maria belo, um havia que o conhecia todo.

Nessas horas de ceias tardias, em que se dava abrigo  a quem presisasse, homem ou besta, Atalaeiro ou Maltês, o Manel Louro zelava por tudo o que era dele, as suas riquezas, poucas, mas valiosas, uma mula no cabanão a meias com um vizinho, a Maria e três filhas que por essas horas já dormiam no andar de cima.

O Manel Louro, de alcunha que não de nome, tinha outros pretences onde cavava o sustento da familia, mas o seu maior bem era a sabedoria, que ninguem sabia onde a fora buscar, talvez nas noites de relento, quando ia á ceifa a Espanha e com saudades não dormia.

Antes, e pelo tempo que demora a rezar duas Ave Marias e um Pai Nosso, estava o Manel, Louro de alcunha não de nome, a enxotar os ultimos hospedes, que de embriagados já não se comportavam, apesar de os ultimos copos de vinho já estarem baptizados e serem do pior barril, que a eles já lhes não fazia diferença, insistiam em beber mais, por fim lá se foram, umas palavras mais ásperas, depois uns risos, as botas a bater no empedrado da estrada, algumas palavras mais, Maria com os ouvidos fora das mantas, tentava perceber se era finalmente o sossego que chegava, de novo as botas a bater no empedrado, foram-se aliviar, pensou, o gingar do portão de madeira ouviu-se, mais alguns ruidos próprios de quem está prestes a render-se á noite, mais um ligeiro restolhar, e finalmente o silencio, Com ele os medos de Maria também ficavam mais fortes…

Atenta, continua a tentar decifrar pelos sentidos, muito activos nessa noite, as razões para os medos, um lobo uiva ao longe e talvez nos eucaliptos um mocho pia, a esses está Maria habituada, finalmente, trazido por uma luz ténue de uma candeia de azeite chega o seu Manuel, espreita no quarto, certificando-se da ausência de ameaças nos cantos escuros do quarto, talvez sabendo que com esse gesto, sossegaria a Maria, depois abala e vai-se sossegar ele mesmo ao quarto das filhas, dormem e ele acacha-lhes as mantas antevendo o frio que se advinha.

Deita-se, já sentindo o aconchego de um lugar aquecido, por uns momentos o silencio é total.

Manuel! Ouves ? parece que alguem está dentro de casa! Manuel senta-se na cama e aguça os ouvidos, não ouve nada.

Deve ter sido o gato! Maria agarra-se ao braço dele

Grandiosa bondade tinha o Manel, Louro de alcunha, não de nome, sabendo que Maria não era exigentee razões teria suas para assim estar,e para a sossegar, decidiu levantar-se e ir passar uma ronda pela casa, acossado pela ideia que embora os Atalaeiros  fossem gente de paz, tocado pelo vinho um homem confunde-se até com a própria sombra, e também viu como um deles olhava para a Maria.

 O sono, o ciume, o medo que tão bem disfarçava, ou o querer fazer tudo para agradar á Maria, sabendo que ela só muito raramente ficava assim, com mais medos que o costume, fizeram-no ouvir os mesmos ou outros barulhos que ela ouvia.

Imaginou as janelas e portas de casa com fechos de madeira que se mal seguram o vento, não seriam dificuldade para um homem mesmo bêbado se o movesse a luxuria ou a sede de mais vinho, pensou nas filhas e na Maria.

Uma luz de fosforo rompe na escuridão e Manuel acende de novo a candeia.

Onde vais meu querido?

Lá abaixo buscar a fouce, que outras armas não as tinha em casa, ainda pensou na faca de matar porcos, mas se nunca a usou para esse fim, talvez por amizade aos ditos que criava, menos lhe serviria com um homem.

Manuel foi abalando com a luz escada abaixo e Maria ficou novamente só com os sons, rangidos de quem desce degraus velhos de madeira, depois ouviu o som metálico do destino misturado com a desgraça, que mais não eram a fouce tinindo nuotras ferramentas, a sua ansiedade aumentava, de novo rangidos dos degraus de madeira, agora de quem sobe, ouviu também o som do que lhe pareceu o postigo do quarto por cima da cozinha, se alguem entrasse por aí chegaria primeiro, o desconhecido entrepunha-se entre ela e o Manuel, chorou baixinho e esperou o tempo que lhe pareceu que demoraria uma Salvé Rainha se tivesse tido a lembraça de a rezar, fechou os olhos e puxou as mantas para cima da cabeça tentando calar os sons e os medos.

Abriu os olhos, desta vez era o seu Manuel que trazia a luz na mão, ele deitou-se e abraçou-a com amor.

Algum tempo depois ambos adormeceram, pelo meio o Manuel lá encontrou uma maneira de  sossegar a Maria.

Que se saiba, se mais alguma vez Maria se viu nestes medos, não o contou a ninguem e disso não há evidências, dos anteriores há a Maria de Lurdes Ribeiro, que mais tarde viria a ser Doutor por casamento, pelo meio há o Louro, agora nome e não alcunha que ela e os filhos passaram a ter por um parente incubido de fazer o registo da criança ter respondido ao escriturario que os pais da catraia se chamavam;

Ela, Maria Ribeiro e ele Manuel Louro.

Publicado por Sebastião da Mata Alves às 20:42
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